Pergunto-me onde é que me perdi. Confesso em voz alta e para que todos possam ler: estou cansada. É como se a minha mente já não tivesse capacidade para se expandir. O bloqueio já não é só criativo, mas também emocional. Vem de dentro, mais profundo. Agora, olho para o céu azul e não consigo ver além. As coisas não têm graça para mim. Os dias passam depressa. Já não estou tão sozinha. Fiz boas amizades. Talvez não consiga escrever coisas boas. Justamente por escrever toda a minha vida, a dor que me acompanhava e ainda me acompanha. Agora tento encontrar um caminho de volta para casa, onde possa libertar-me e escrever para além da dor. Não sei o que fazer: talvez escrever coisas sem importância, talvez tentar ver a felicidade como algo possível para mim, debater comigo mesma quando tudo parecer desmoronar-se. Continuo muito cansada, Lygia, e sei que não posso exigir tanto de mim, mas se não tentar nada, até quando vou continuar assim? A desistir de mim mesma e dos meus projetos, que poderiam ter um grande futuro. Deixar o meu sonho e ver a vida passar, ver que poderia ter chegado longe. Estou a tentar mudar, a dar uma oportunidade para conhecer pessoas, a acreditar que sou interessante o suficiente para mim e a não me esconder mais nas sombras. Quero escrever sobre outros assuntos e sentir que posso fazer o que muitos fazem sem medo algum. Quero escrever sobre histórias e o cotidiano da vida, não só a da minha, também para de escrever coisas repetidas e lamentações. Lygia, eu gostaria de ser grande o suficiente para ser motivo de orgulho, sentir que minha existência valeu de alguma coisa.
“O que gostarias de ser?” pergunta a minha mente, Lygia.
Respondo: o suficiente para mim sentir que o que escrevo pode salvar mais do que só a minha vida, e trazer paz a alguém que também está em guerra consigo mesmo.
O caminho é longo, mas estou bem e feliz, e compreendo que a felicidade é um estado. Lygia, também está tudo bem, a tristeza diz “olá” por vezes, e tenho de aprender a lidar com ela. Lygia, hoje é só isto. Não é um texto revolucionário nem profundo, é somente mais um desabafo sobre este sentimento que parece não querer desaparecer.



